Agora somos “SR” – O famoso “SUPER RANDONNEURS”

SRs: Fabio, Sandro e Adriana
Por: Adriana Sousa

Isso mesmo, AGORA SOMOS O FAMOSO “SR” QUE SÓ NOS CONHECEMOS, rsrsrsrsrs!

Que sejam ditas as palavras do Cicero, organizador da prova:

“Não somos melhores ou piores do que ninguém por concluir com sucesso o BRM 600km, mas somos melhores do que ontem, somos SR.”

Uma grande superação.

E está feito! Mais um AUDAX fechado com chave de ouro! Desta vez foram 600km em 37h40 de prova! Caraca! Nem eu acredito…
Quero reviver e dividir um pouquinho de como foi toda essa experiência. Mas antes, vamos fazer um resumo da prova em si, para os que ainda não são Randonneurs, possam se preparar e encarar essa louca aventura… Quem sabe?!

O título de “Super Randonneurs” é atribuído ao ciclista que concluí dentro do regulamento, os seguintes brevets (BRMs): 200km, 300km, 400km e 600km no ano calendário da série.

Estilo: Cada ciclista tem o seu estilo. Tenho amigos que amam terra, outros a velocidade da estrada e alguns, os grupos de pelotão. Eu sei que não curto pelotão, mas entre a terra e o asfalto ainda não me decidi, por isso vou continuar fazendo os dois 🙂 E ainda acho que não vou me decidir, rsrsrsr. Neste caso, as provas de AUDAX são realizadas nas estradas, então, se este é um dos seus estilos, já está com o pezinho dentro, rs. Pode ser utilizado qualquer tipo de bicicleta, apesar da speed ser a mais adequada, eu mesma já fiz um dos meus 200km de mountain bike.

Um pouquinho sobre AUDAX (Audax Club Parisien – ACP): No mundo inteiro existem provas reconhecidas e auditadas pelo ACP. Todas seguem as mesmas regras e tem o mesmo regulamento.
As provas não têm classificação e são de regularidade. O tempo máximo global para cada percurso consta na tabela abaixo:

DistânciaTempo
200 km13h30m
300 km20h
400 km27h
600 km40h

Nas provas existem Postos de Controle, os PCs, com horário de abertura e de fechamento pré-determinados. Cada ciclista recebe uma carta de rota com o percurso, a localização dos PCs e o “Passaporte” que será carimbado e inserido o horário de passagem no respectivo posto.
O participante que concluir todo o percurso no tempo limite estabelecido, recebe o “brevet” ou a “homologação” desse brevet.

O que é BRM? Brevets são os estágios reconhecidos pelo Audax Club Parisien (ACP) e Les Randonneurs Mondiaux (LRM). No mundo os brevets sancionados pelo ACP, são conhecidos como “BRM”, que significa Brevets Randonneurs Mondiaux.

Site oficial: http://www.randonneursbrasil.org

Agora que vocês já sabem o que são brevets 🙂 e o conceito dessa prova desafiadora de regularidade e resistência, vamos respirar fundo, pois iniciarei o meu relato ao percorrer os 600km, e me tornar a SR. Adriana.

Recapitulando, finalizei dia 12 de Agosto de 2018 os 400km com sucesso. E ao terminarmos a prova, eu e o Fabio, mesmo cansados e cheios de dores, já sabíamos que tentaríamos os 600km. A Ana, como sempre, nos incentivando e dizendo que estaria firme e forte fazendo nosso apoio.

É difícil escolher a prova, mas antes de concluir os 400km, já tínhamos decididos tentar os 600km em Curitiba, afinal, já estamos no final do calendário de 2018 e não tínhamos muitas opções. Ficamos focados nas altimetrias das provas e escolhemos essa em Curitiba por ser plano. Doce ilusão. Contarei mais pra frente as vantagens e desvantagens dos diferentes percursos os quais eu participei.

Ao abrirem as inscrições, o Sandro fez a dele com sucesso, eu fiz a minha, e na sequência o Fabio fez a dele. Confirmado, todos inscritos.

O intervalo de uma prova para outra foi um pouco menos de 1 mês, e nesse tempo, não pude treinar muito no rolo, pois, o “meu trazeiro” ainda estava debilitado da prova de 400km. Eu alternei o rolo com treinos no Elíptico (que eram de pé) e ainda assim sentia muito cansaço nas pernas. Eu me policiava para não ter um “Over training: o pior inimigo dos treinos intensos”. Quando as provas são muito próximas, temos o benefício do treino acumulado, porém precisamos ter atenção para não treinar em excesso.

E o grande dia chegou! Feriado 7 de Setembro, sexta-feira, largada da prova em Curitiba.

Largada Audax 600km às 6am – Curitiba

Éramos um total de 25 ciclistas, os organizadores disseram que estávamos batendo um recorde, com 2 mulheres na prova de 600km: eu e a Fernanda, também de SP. Muito orgulho de fazer parte desta história.

Todos os Curitibanos estavam preocupados com a galera de SP, éramos em 5, nós 3 e mais uma dupla: Fernando e Fernanda. Estavam todos dando dicas, mostrando mapas e nos ajudando, afim de evitarmos erros no trajeto e kms adicionais. Sim, temos GPS e o mapa foi carregado em Garmins, celulares, mas nem sempre é fácil. O cansaço faz horrores nas nossas mentes. Aqueles que já fizerem os 200km, 300km e 400km, em Curitiba, já conheciam a rota.

Esta prova era bem diferente das quais fizemos até o momento, onde íamos de uma cidade até a outra, passando por várias cidades no meio do caminho e voltando. Tínhamos também 1 ou 2 PCs virtuais e os outros físicos. Já nessa prova em Curitiba, realizaríamos o mesmo trecho várias vezes, tínhamos a Largada + 10PCs (3 físicos e 7 virtuais), sendo 2 PCs com quase 100km de distância:

Descritivo dos PCs

O Primeiro PC era em 99,3km de distância, e lá estávamos nós! Com a largada às 6 da matina, completamos os primeiros 100km de prova. Chegamos com muita fome, mas bem. Estávamos inteiros e ainda com muita alegria por estar tentando os 600km.

Eu fui muito apreensiva para a prova; 2 pontos me preocupavam:

  1. Dificuldade. Eu conheci muitas pessoas que estavam mandando bem os 200km, 300km e 400km, quando foram para o 600km simplesmente não rolou. Algumas tentaram mais de 1 vez e não mandaram. O Fernando e a Fernanda estavam tentando pela segunda vez.
  2. O San. Ele é bem mais forte do que eu, com certeza poderia fazer a prova inteira na média de 35km/h. Eu não podia deixar ele me quebrar e eu não podia quebra-lo. Como encontrar harmonia nisto?

Eu treinei corrida muitos anos com assessoria esportiva e sabia onde ceder e onde segurar firme meu limite. Porém, infelizmente a estratégia é traçada durante a prova, não sabemos como vamos acordar, se será nosso dia bom (se o corpo vai fluir, se a bicicleta encaixará de forma perfeita, se cada giro sairá leve) ou nosso dia ruim (putz… caso estejamos travados, sem saber o porquê, mas o músculo da coxa fica duro e nenhum movimento tem fluidez). Felizmente, nós 3 (San, Fabio e eu) estávamos no nosso dia BOM! Então de alguma forma, a harmonia aconteceria e eu estava pronta para ver na prática em qual percentual eu acabaria: junto dos que finalizaram os 600km ou talvez tentando novamente num outro momento.

Começamos com a média de 28km/h, estávamos decididos a pedalar 400km e parar por 1h30 – 2h30 para dormir, porém tudo dependeria do tempo que teríamos de sobra. E assim, seguimos em frente, PC após PC, focados!

Chegamos às 4hs do sábado, dia 08 nos 400km, 22hs de prova. Eu estava bem cansada, nossa media no final dos 400km era de 24km/h, ainda era uma boa média, mas eu estava só o pó. Pegamos muito vento e por ser plano, não paramos de pedalar, foram 400km rodados e com certeza 350km girando (pedalando sem parar).

E aí percebemos a dificuldade do percurso plano com trechos repetitivos. A frequência do giro é praticamente contínua e precisamos ter um psicológico treinado, pois repetir o mesmo trecho várias vezes chega a desanimar. Enquanto que provas em Serras, exige mais força e o esforço psicológico acaba sendo quebrado a cada altimetria ultrapassada. Cada prova tem suas individualidades, eu prefiro experimentar diferentes tipos de trajetos.

Mas então, de volta à Curitiba, pedalamos os 400km conforme o combinado e talvez pudéssemos parar para descansar. Daria tempo?! Daria? SIM! Estávamos adiantados, tínhamos 2hs para comer, tomar banho e cochilar:

No primeiro dia, passando rapidinho pelo PC de descanso, alegres e sorridentes

A dupla Fernando e Fernanda, e acho que mais 3 ciclistas, pararam no ponto de ônibus para dormir, eles não conseguiram chegar no ponto de DROP para tomar banho e dormir na cama. Isso é normal nessas provas, o sono bate, as pessoas deitam no chão e simplesmente apagam. Por isso é obrigatório a manta térmica. As baixas temperaturas na madrugada, com as roupas molhadas de chuva ou suor, não são boas combinações, e precisamos evitar ao máximo passar frio durante esse descanso:

Cochilo no ponto de ônibus

O tempo em que tomamos banho, dormimos e comemos, o relógio da prova continuava correndo. Tínhamos o total de 40hs para concluir. E após essas 2h, retornamos à prova às 8hs com 26hs de prova corrida. Tínhamos 14hs para finalizar os 200km restantes.

Nesse momento, me deparei com meu segundo ponto de preocupação: nossa harmonia. Decidi que não pedalaria com o San, eu precisava manter um ritmo de 20 no máximo 22km/h para não quebrar e conseguir finalizar a prova. Falei que o San e o Fabio podiam seguir. O Fabio ficou dividido, não queria me deixar sozinha, mas ele estava melhor do que eu e com certeza conseguiria acompanhar o San. O San falou que também diminuiria um pouco, mas nem tanto, já que um ritmo muito lento não lhe faria bem. E assim retomamos nossa rota.

Esses 65km até o próximo PC foram cruciais, eu não podia quebrar e nem o San. No final ele acelerou e o Fabio ficou comigo. Eu não me importo em pedalar sozinha, mas foi muito bom naquele momento de cansaço ter o Fabio comigo. Porém, eu achei que estava atrapalhando, eles com certeza teriam terminado a prova no mínimo 1h antes. Bateu um desânimo, e aquela minha preocupação com a dificuldade da prova começou a tomar forma, pensei em desistir neste próximo PC… Ou falar que desistiria para eles tocarem e eu ir depois no meu ritmo. Perdida, eu precisava de um tempo e falei que queria comer, o Fabio concordou, e nós 3 acabamos decidindo fazer a parada para o almoço.

Balsa no percurso de 600km

No restaurante, encontramos um pessoal de Curitiba, que também estava participando da prova. Com o pensamento confuso e muito cansaço, comentei que pensava em desistir… Mas com o incentivo de todos em continuar, já que faltavam apenas 140km, engoli o choro e decidi seguir em frente. Porém não comi muito, o cansaço já ganhava da fome.

O próximo trecho tinha 2 PCs de 20 e poucos kms, totalizando quase 50km. Porém, foi o pior trecho que pedalamos! Uma serrinha, sem acostamento e juro: os paranaenses que passaram por ali, foram muito sem noção, não respeitaram nós ciclistas. Prefiro a Rodovia dos Bandeirantes mil vezes do que esse trechinho! Mas firme e forte, finalizamos mais esses 2 PCs.

Era a reta final, os último 2 PCs pela frente, estávamos na volta da última repetição da prova toda! Reencontrávamos o San nos PCs, ele chegava com uns 10min de diferença e nos esperava. Mas é claro que nem tudo é um conto de fadas… Erramos o caminho 😦 O mesmo caminho que já havíamos repetido várias vezes nas últimas 30 e pouco horas de prova! Como??? Pois é, não sei, pedalamos mais 10km… Pensa numa pessoa brava: o San rsrsrs Eu e o Fabio ficamos mais desolados do que bravos. Até agora não sabemos se existe algum culpado por esse erro, mas 10km a mais na conta é muito triste kkkkk. É estranho dizer isso para pessoas que pedalam 600km, mas 1km na prova, faz diferença, faz muita diferença. Seguimos em frente.

600km percorridos

Enfim… Chegamos! Com 37h40 de prova, SOMOS SRs.
A dupla Fernando e Fernanda também chegaram.
Dos 25 ciclistas, apenas 2 não completaram a prova.

A minha ficha ainda não caiu.
É uma conquista muito pessoal, apesar de pedalarmos em equipe, cada um teve a sua dificuldade de forma independente, e tenho certeza de que a alegria da superação, realização e conquista é igual e se complementa nos nossos corações.
Grande equipe, grandes amigos!

Uma parte fundamental de nossa equipe, que percorre os mesmos quilometros e até bem mais, é a equipe de apoio! A Aninha, mais uma vez nos apoiou e acompanhou intensamente durante todo o percurso. Ficou acordada e cochilou algumas poucas vezes, enquanto nós três realizávamos um sonho e desafio pessoal. Obrigada de coração à todos que nos apoiaram antes, durante e depois dos gloriosos 600km.

Agora vocês acham que a galera está satisfeita? Claro que não… rsrsrs Não param de me falar: “Bora fazer 1.000km Dri?” Eu já falei que vou sair do grupo do Whats… Todo mundo é louco ali… Mas quem sabe… Essa prova de 1.000km é o sonho de consumo de muitos ciclistas 🙂 Só tem de 4 em 4 anos e acontece no ano que vem:

“A nossa organização é emblemática do Paris-Brest-Paris Randonneur. Desde 1931, nós montamos a rota da famosa prova vencida por Charles Terront em 1891. A cada 4 anos, 40 mil BRM habilitam que mais de 6.000 ciclistas se qualifiquem para este passeio fabuloso. Eles terão menos de 90 horas para pedalar os 1.200 km do percurso e viver um dos melhores momentos da sua vida ciclística.”

SERÁ QUE DÁ?????????????????

Para ler o meu relado dos 400km, cesse:
https://kmdecadadia.com.br/2018/08/28/trajetoria-para-alcancar-os-400km-audax/(abre em uma nova aba)

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